terça-feira, 22 de março de 2011

Hoje li um conto da Marina Colasanti, de seu livro "com certeza tenho amor", editora Global. Enquanto lia pensei em como o texto era mais profundo do que uma simples história (como a maioria dos textos da Marina Colasanti) e encarado de uma certa forma ele me lembrou da meditação, do encontrar a nossa essência. A opinião é minha, vou copiar aqui a história, leia veja o que sente. Chama-se:
NO ACONCHEGO DE UM TURBANTE
O único filho do velho vizir não demonstrava ter herdado a sabedoria do pai. Com a morte deste,porém, herdou-lhe toda a fortuna.
logo empenhou-se em gastá-la. Novos palácios, novos elefantes, novos trajes suntuosos, novas jóias, novas babuchas bordadas, Fez-se imperioso ter um novo turbante.
Chamados, os mercadores de tecidos derramaram a seus pés damascos, veludos, brocados, cobrindo de cores e brilhos o mármore do salão, sem que nada satisfizesse o exigente jovem. Afinal, entre tantas, escolheu uma peça de delicada seda cor de palha entretecida de fios de ouro. E, para a surpresa de quantos o rodeavam, exigiu que fosse toda ela utilizada na confecção do turbante. Haveria de ser o maior jamais visto por aquelas paragens.Enrola, enrola,enrola, depois de muitas voltas o jovem viu-se coroado pelas espirais macias que, sobrepostas umas às outras, avançavam para lá de sua cabeça sombreando-lhe o rosto e os ombros, turbante amplo como um guarda-sol, que foi arrematado à altura da testa com uma esmeralda do tamanho de um ovo, e um discreto penacho.
Agora o filho do vizir podia, de modo condigno, pensar em outras maneiras de enfeitar sua vida e sua pessoa.
Estava justamente sentado em um banco do jardim, envolto nessas meditações, na manhã de quase verão em que uma cegonha, chegando cansada da longa migração, viu naquela estranha espécie de ninho a possibilidade de instalar-se sem delongas. num último bater de asas, pousou bem no meio do turbante, eriçou as penas espantando a poeira da viagem, dobrou as longas pernas, ajeitou0-se, e fechando as pálpebras pálidas adormeceu.
paralisado de surpresa, o filho do vizir perguntava-se o que fazer. Espantar animal tão benfazejo era impensável, não se enxota a boa sorte que nos escolhe. Compartilhar com ela o turbante parecia impossível. De momento, porém, não havia outra solução à vista. Não seria por muito tempo, pensou o jovem. Quando a cegonha acordasse, certamente buscaria pouso mais conveniente, uma boa chaminé, um topo de telhado, uma árvore.
Imóvel, o filho do vizir esperou...
...A princípio no palácio e logo na cidade, comentava-se. Eleito por uma cegonha, o filho do vizir já não parecia tão leviano, dotes ocultos haviam de ter motivado aquela escolha. E de fato, o jovem, andando com passos pausados para manter o equilibro de tanto peso, adquiria postura mais severa, um acerta dignidade parecia transmitir-se a seus gestos. Não mais se interessava por festas - e como poderia entregar-se a danças ou farrear com amigos, carregando aquela alada presença que mal via?
Pela primeira vez consciente da própria cabeça, o filho do vizir descobria-lhe outros usos. Sem poder cavalgar, sem participar de torneios ou caçadas, deixava expandir seus pensamentos, refletia. E os serviçais surpreenderam-se vendo-o ocupado em leituras.
Depois um dia, de repente, um estremecimento no alto, um seco estalar, e eis que a cegonha havia colhido com o bico a bela esmeralda que arrematava o turbante. Em vão o filho do vizir alongou o braço apalpando. Ela a havia metido debaixo de si junto com seus próprios ovos, e revidava a bicadas qualquer tentativa de invasão. Caído o penacho, perdida estava toda elegância.
No palácio, porém , a ausência da esmeralda foi interpretada como um gesto de modéstia, e muito louvada.
Passou-se uma semana, outras vieram puxadas por aquela. Quanto demoram ovos de cegonha para eclodir?, indagou o filho do vizir. Agora mantinha-se quase imóvel, como no primeiro dia, não fosse um movimento em falso pôr a perder todo o esforço de vida que se desenrolava acima de sua cabeça. E parado meditava, sentindo-se parte daquele milagre....


A história continua mas paro por aqui. Não sei qual foi a idéia da Marina Colasanti quando escreveu, mas eu a senti assim: nascemos, crescemos, nos tornamos adultos e o que mais queremos é aproveitar a vida (o filho do vizir ao se ver dono de uma herança fabulosa) esquecendo que o renascer neste planeta é uma oportunidade maravilhosa de crescimento espiritual.
Quando começamos buscar por esse crescimento, através do buscar por nossa verdadeira essência, do buscar o bem, o fazer o melhor de nós, ou meditar, colocamos o turbante de fios de ouro, então a Presença Divina chega, como a cegonha da história e nos faz aquietar mais, buscar por novas perspectivas, por outras paragens que nos fazem respirar com mais quietude e alegria. A quietude e alegria que vem com esse voltar-se para dentro.
Às vezes parece que "esmeraldas" nos são tiradas, mas na verdade nos tornamos maiores sem elas. E, finalmente, ao encontrar essa luz interna, sentindo a vida "acima" e ao mesmo tempo dentro de nós, percebemos que fazemos parte deste grande milagre que é o Universo.

Fecho o nosso texto com duas frases de Sai Baba:
"Tudo é divino. Quando você está seguro de sua divindade, certamente você reconhecerá a divindade do próximo"

"Se você alguma vez contemplou com deslumbramento uma noite estrelada ou se maravilhou com o milagre de uma flor silvestre você já começou a meditar"

Bom fim de semana e ótimo inicio de semana, que muitas cegonhas possam fazer ninho em seu turbante dourado!

Namastê!




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